É hora de começar a pensar na cultura do erro

É hora de começar a pensar na cultura do erro

A psicóloga e CEO da A3 Consultoria, Alessandra Luzine, fala sobre a “cultura do erro”, conceito usado por startups que agora começa a ser incorporado em empresas comuns

Publicado dia 30 de maio de 2019

*Alessandra Luzine

Como bem diz o ditado: Errar é humano! Mas, no mundo corporativo, não funciona bem assim. Os fracassos não são bem vistos e aceitos pelas empresas tradicionais. Mergulhadas em orçamentos reduzidos e diante da necessidade de gerar lucro, elas não se permitem falhar. Para os executivos então, os deslizes podem ser quase que fatais, gerando má reputação e manchando seus currículos. Por isso, muitos privilegiam as conquistas e escondem os erros que cometeram ao longo da carreira.

Entretanto, na contramão desta vertente, empresas inovadoras, que nasceram na região do Vale do Silício, na Califórnia (EUA), passam a adotar outra estratégia. Elas incorporam a mentalidade de que os fracassos – e o aprendizado com eles – são fundamentais para o crescimento. Acreditam que o erro pode estimular empresas e seus interlocutores a se reelaborar. O conceito de “cultura do erro”, ou “fast fail”, tem como objetivo criar uma reação de urgência na resolução da falha.

Neste aspecto, cabe pontuar que nem todo erro é igual. Existem aqueles cometidos por desvio de conduta, desatenção, falta de capacidade e inadequação de processos, que poderiam ter sido evitados e, por isso, continuam sendo condenáveis. Por outro lado, há outros provenientes de incerteza sobre eventos futuros, complexidade do processo, teste de hipótese ou teste exploratório, que são aceitáveis, pois geram um conhecimento valioso que pode ajudar a organização a saltar à frente da concorrência.

É óbvio que o erro não faz parte da tomada de decisão de nenhuma empresa, pois ninguém escolhe falhar. No entanto, é preciso estar preparado para essa situação e entender que a saída do erro evidencia e potencializa forças que, até então, estavam adormecidas, algo fundamental no processo de autoconhecimento. Ao errar, o indivíduo se esvazia do próprio ego e se vê obrigado a se atualizar de forma rápida. E isso exige atitude.

É preciso coragem para encarar o erro de forma real – e não como uma idealização de acerto. Levar uma organização a aceitar as falhas requer liderança. Somente um bom líder pode neutralizar o jogo da culpa, permitindo aos liderados expor e aprender com o erro de forma madura. Cabe ainda ao gestor garantir que a empresa utilize a abordagem correta para o aprendizado em circunstâncias adversas, envolvendo, necessariamente, três instrumentos: detecção, análise e experimentação.

Nessa abordagem, o grande desafio é minimizar os riscos e usar os erros de forma inteligente, gerando conhecimento e inovação. Mas isso não ocorre do dia para noite. Inicialmente, é preciso estar disposto a sair da zona de conforto, encarar e refletir sobre as falhas, assumir responsabilidades e buscar saídas. A evolução analítica é fruto da capacidade de viver em um mundo real, onde são construídas soluções frente aos erros e acertos. Sempre é tempo de se reinventar!

*Alessandra Luzine é psicóloga, especialista em Gestão de Pessoas e Negócios e CEO da A3 Consultoria